O CONTENCIOSO HISTÓRICO FRANCO-AFRICANO
Os casos dos Camarões, RCA, Togo, Gabão, Chade
1 – A FRANÇA COLONIAL PODERIA IMAGINAR?
A França colonial não podia imaginar que massacrando os nacionalistas africanos sem barulho e com a conivência da Comunidade Internacional, apenas menos de duas gerações depois, outras meninas e outros filhos de África iriam levantar o Contencioso Histórico relacionado com os seus crimes, confrontando-a com o seu passado, saturado de cortes de cabeças dos nossos mortos, num mar de sangue dos mártires da independência.
Isso acontece quando, subtilmente, ao abrigo dos «Direitos Humanos» ou «para ajudar a África», as ruidosas botas francesas são ouvidas novamente em território Africano (Costa do Marfim, Mali, RCA — República Centro-Africana). O trabalho destas várias missões militares francesas incide sobretudo e nomeadamente: na Costa do Marfim, a partir de 2002, a eterna operação Unicórnio (Licorne) com 4000 soldados, acabou por derrubar o presidente Gbagbo[1] para entregar o poder ao presidente Alassane Ouattara[2]; a operação Serval, no Mali, desde 2013, tem como objectivo oficial lutar contra a insurgência islâmica no Magrebe e eliminar os últimos grupos rebeldes; as operações Boali e Sangaris, respectivamente de 600 e de 1200 soldados franceses, encontram-se na RCA para proteger o presidente François Bozizé[3] ameaçado pelas milícias Seleka[4] e mais tarde para conter a extrema violência que tem assolado o país desde a deposição de Bozizé, em Março de 2013. Torna-se vital lembrar que, noutros tempos, essas movimentações de tropas foram justificadas por álibis de ordem moral, teológica e humanista, mas um exame atento mostra que elas foram meros pretextos para a ocupação e exploração, até mesmo à custa de genocídios.
Ao introduzir o código do indígena, o sistema dos trabalhos forçados, que causou a morte de milhares de africanos, assassinando os heróis nacionalistas e os patriotas africanos, massacrando populações inteiras com actos de guerra, exterminando alguns grupos étnicos, a França pensava, provavelmente, que ia livrar-se deles para sempre. É, geralmente, um mau cálculo de todos os criminosos cegos pela ganância desenfreada porque, mais do que nunca, a memória desses mártires está em sintonia com o ar dos tempos, e podemos dizer, taxativamente, que o Estado francês e seus aliados os assassinaram para os fazer renascer na consciência de novas gerações de africanas e africanos, pelo que, não haverá paz, enquanto a França não pagar pelos seus crimes contra os nossos pais e mães. Não haverá paz sem o reconhecimento dos crimes, sem o pedido de desculpas oficial e um tributo merecido à memória dos mártires, sem uma posterior compensação e uma reparação adequada pelos danos sofridos pelo povo camaronês e pelos outros países africanos. O Estado francês actual é a extensão natural do império colonial francês de outra época. Mas isso não é suficiente: a França deve retirar-se de África, não só fisicamente, com a evacuação das suas forças de ocupação, mas também política e diplomaticamente, cessando as suas interferências, os seus comentários tendenciosos e outras tomadas de posição não desejadas, nos nossos assuntos.
Dr Daniel YAGNYE TOM
[1] Laurent Gbagbo (1945- ), político, historiador e escritor marfinense. Presidente da Costa do Marfim entre 2000 e 2010.
[2] Alassane Dramane Ouattara (1942- ), actual Presidente da Costa do Marfim. Entre 1990 e 1993 havia sido primeiro-ministro.
[3] Nasceu em 1946. Militar e sexto presidente da República Centro-africana, depois do golpe de estado do dia 15 de Março de 2003.
[4] Aliança de orientação muçulmana formada em 2012, sem linha política nem uma ideologia clara que tomou o poder em 24 de Março de 2013 depois de liderar um golpe contra o presidente Bozizé.