Publicação em português

O CONTENCIOSO HISTÓRICO  FRANCO-AFRICANO : « DA COLABORAÇÃO » -2-

No Chade

Neste país houve várias intervenções militares francesas, e entre 1968 e 1972 morreram cerca de 38 militares francesas nas operações «Limousin e Bison», no Tibesti, contra o Frolinat[1], a Frente de Libertação Nacional do Chade. Houve uma outra intervenção francesa de Março de 1978 até Maio de 1980 contra a mesma Frolinat.

A partir do dia 18 de Agosto de 1983 até Fevereiro de 1986, 4000 soldados franceses apoiavam o presidente Hissene Habre[2] contra Goukouni Oueddei[3]. Habre está actualmente a ser julgado em Dakar, por crimes contra a humanidade…

Em 2006, no mês de Fevereiro, a aviação francesa salvava N’Djamena das forças que estavam a 250 quilómetros da capital para se instalarem no aeroporto, em 2008.

  Na Costa do Marfim

Tendo em conta a importância económica e geoestratégica deste país, torna-se necessário apresentar alguns pormenores, o que acabou por hipotecar os anseios das populações desta região e do continente. A verdade é que Félix Houphouet-Boigny, o primeiro presidente da Costa do Marfim, estava CONTRA as independências da África dita francófona.

«No Congresso de Bamako, em 1946, a tese da autonomia, quer dizer, da independência, prevaleceu contra a minha vontade. Mas eles queriam que eu fosse o presidente do Movimento. Como me recusava a aceitar as funções que iriam obrigar-me a tomar as decisões que não aceitaria, o debate foi reaberto, a minha ganhou por muito pouco (!) e consegui tomar a presidência…Foi assim que, em vez de um combate para a independência, acabámos por escolher a adesão à Comunidade Francesa. A minha satisfação hoje é que esta tese constitui a tese de toda a RDA, mas também se tornou a tese de todos os partidos políticos africanos.»

Esta frase foi retirada de uma entrevista a Houphouet-Boigny (com algumas mentiras, porque nem todos os partidos aceitaram a adesão à Comunidade francesa, a UPC dos Camarões e o PDG da Guiné, por exemplo, não aceitaram) publicada no jornal francês Le Monde, no dia 4 de Outubro de 1957, sobre a reunião constitutiva do Rassemblement Democratique Africain (RDA).

Mas há outras saídas espectaculares de Houphouet-Boigny, como, por exemplo, que a escolha da África apenas pode ser a «criação de uma África nova e próspera no seio de uma União Francesa forte e fraternal», da tese em Ciências Políticas de J. Ndong Obiang[4]. «(…) A Costa do Marfim fez a sua escolha no que lhe toca. Qualquer que seja a situação, aderira directamente à Comunidade Franco Africana. Com um Executivo federal, sim, mas em Paris e não em Dakar»[5]. E ainda, mais tarde, quando Houphouet foi informado da decisão, sem o consultar, de De Gaulle (que foi forçado) de «oferecer» a independência a quem a quisesse, deixando assim a nascida-morta Comunidade Francesa. Houphouet-Boigny, desgastado, disse: «Esperei a Federação com as minhas flores murchas (…) a Comunidade foi elaborada sem nós e fora de nós, e contrariamente aos nossos desejos, que eram de uma organização federal (…)».

Senegal, Dahomey (actual Benim), Alto Volta (actual Burkina Faso) e Sudão francês (actual Mali)

         Os representantes destes países decidiram em Dakar, no dia 17 de Janeiro de 1959, a criação de uma Federação do Mali. Decisão que caiu mal à França, que pôs uma acção contra Houphouet-Boigny, tendo em conta as estreitas relações económicas entre a Costa do Marfim e o Alto Volta. Assim que o Alto Volta e Dahomey abandonaram este projecto de Federação do Mali, que ficou reduzido ao Senegal e ao Sudão francês, Senghor[6], do Senegal, e Modibo Keita[7] não podiam entender-se porque tinham, cada um, um conceito diferente da Federação: Senghor era pelas teses francesas, enquanto Modibo Keita era um nacionalista pan-africanista, ou seja, um pan-africano socialista.

 Na Guiné-Conacri

         A Guiné-Conacri é uma excepção: recebeu a sua independência sem uma luta armada graças a um contexto em que, ultrapassada pelas guerras nos Camarões e em Argélia, a França não foi capaz de abrir uma terceira frente na Guiné… Em geral, diz-se que depois de Ahmed Sekou Touré e da Guiné dizerem «Não», De Gaulle ofereceu a independência. Desde quando a independência se oferece?

         Para as suas independências, a Guiné-Conacri e a Argélia beneficiaram, assim, da resistência armada da União das Populações dos Camarões. Não podendo continuar com as duas frentes ao mesmo tempo, a França mobilizou-se totalmente para a sua guerra nos Camarões, tirando os seus militares da Argélia para os Camarões, depois dos acordos de Evian[8], que deram a independência à Argélia.

         Mas o Presidente Sekou Touré: «Conheceu tantas conspirações em dois anos, que por fim (…) acabou por se tornar paranóico, o que acabou por mudar os seus planos, pondo-o fora do jogo. (…) Por isso, puseram no poder uma série de chefes de Estado amigos, dependentes deles, para manter o sistema com um conjunto de mecanismos paralelos.»

         Entre esses mecanismos, Verschave refere a presença de mercenários, como Bob Denard[9], que na verdade era um:

«Verdadeiro-falso mercenário, porque quando esteva num julgamento, todos os serviços secretos vinham dizer: mas o senhor Denard trabalha para nós. Não é um mercenário, é um pirata da república, uma prova de que fazia parte dos meios ocultos.»

         Há também outros meios «muito mais subtis, muito mais fortes», diz Verschave. Por exemplo, a sociedade Elf, «testa de ferro dos serviços secretos franceses», que procurava milhares de milhões com a venda do petróleo africano para realizar algumas acções secretas, como o financiamento da guerra da França contra a Nigéria, a Guerra do Biafra[10], «para controlar uma parte de petróleo da Nigéria», mas também para financiar «uma série de golpes de Estado, as guerras civis, o tráfico de armas». Verschave também refere o caso de empresas de segurança que cobravam três vezes mais os seus serviços, a fim de terem os meios necessários para as suas acções. Ele conclui assim:

«Então, nós colocámos um monte de mecanismos que permitiam bombear o dinheiro (…). As bombas para tirar dinheiro que permitiram subtrair grande parte da substância dos recursos africanos e extrair graças ao franco CFA», cuja conversibilidade era a «maneira mais segura para extrair os recursos da África».

         Este último meio faz parte dos mecanismos mais complexos. Assim:

         «Estamos num mecanismo de zero graus de independência (…) para acabar com a total independência.»

Dr Daniel YAGNYE TOM


[1] Front de Libération Nationale du Tchad, no original francês.

[2] Nasceu em 1942. Do partido Frolinat, Frente da Libertação do Chade. Terceiro presidente deste país de 1982 até 1990.

[3] Nasceu em 1944. Foi chefe de Estado do Chade de 1979 a 1982, quando foi derrubado pelo Hissene Habre.

[4] OUA — Organização da Unidade Africana e a luta pela independência, 1972 p. 39.

[5] Em Afrique Nouvelle, 18 de Abril de 1958.

[6] Léopold Sédar Senghor (1906-2001), escritor membro da academia francesa, político, ideólogo do conceito «negritude» juntamente com o poeta antilhano Aimé Césaire. Primeiro Presidente do Senegal. Presidente da Falhida, Federação do Mali que englobava o Senegal e o Mali.

[7] Primeiro Presidente da República do Mali, entre 1960 e 1968. Nasceu em 1915 e morreu em 1977. Pan-africanista e Socialista, de 17 de Janeiro de 1960 até 20 de Agosto de 1960 foi presidente da Assembleia Federal e Chefe do Governo da Federação do Mali, enquanto Leopoldo Sedar Senghor era presidente.

[8] Estes acordos puseram fim a sete anos e cinco meses de guerra durante a qual morreram cerca de milhão e meio de argelinos, segundo o Estado argelino; do lado francês foram 28 500 mortos. Os acordos foram o resultado de negociações entre os representantes da França e do Governo Provisório da República Argelina (GPRA), tendo sido assinados no dia 18 de Março de 1962, em Evian.

[9] Bob Denard (1929-2007), um dos mais famosos mercenários desde a Segunda Guerra Mundial. Fomentou vários golpes nos países africanos. Serviu a marinha francesa na guerra na Indochina, efectuou muitos trabalhos para Jacques Foccart e foi o «apoio secreto» do governo francês.

[10] Durou de 6 de Junho de 1967 até 15 de Janeiro de 1970. Houve mais de um milhão de mortos. A guerra foi  liderada pelo separatista Odumegwu Ojukwu, tendo sido causada pela tentativa de secessão das províncias ao Sudoeste da Nigéria, com a autoproclamada República do Biafra, rica em petróleo.

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