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Publicação em português

O CONTENCIOSO HISTÓRICO  FRANCO-AFRICANO : « DA COLABORAÇÃO » -1-

A definição desta colaboração irá permitir situar, desde o início, a natureza do Contencioso Histórico, que é o propósito desta reflexão. De acordo com o professor Jean-Charles Coovi Gomez[1]:

         «A colaboração é o envolvimento político e intelectual consciente, que consiste em favorecer as relações estreitas, sentimentais, íntimas com o poder colonial dominante, fazendo passar, antes de tudo, essas relações como indispensáveis para a nossa sobrevivência, porque naturais.»

O Prof. Coovi explica que esta abordagem é semelhante a:

«(…) uma derrota do espírito e do pensamento que considera, à priori, irreversível o mito da superioridade do Ocidente.» A partir daí, as principais figuras africanas de primeiro plano «forjaram — disse ele — uma espécie de divisão do trabalho que, em virtude da interdependência de todas as nações, alguns têm o privilégio de conduzir e guiar o mundo», enquanto «os outros têm por vocação fornecer as matérias-primas. Por isso, o Ocidente tem o monopólio da inteligência, e a África, com os seus recursos naturais, pode, colaborando lealmente, por sua vez, beneficiar da transferência de tecnologia».

         A responsabilidade africana não pode, portanto, ser evitada ou escamoteada, mas essas elites africanas são simplesmente marionetas do poder colonial que, na sombra, puxa os cordelinhos e coloca os seus peões no tabuleiro de xadrez político, no contexto da França-África, tal como definida atrás.

         François-Xavier Verschave explica como funciona:

srnhossrência de tecnologia. «  »

A França-África é o que foi pensado e materializado em 1960, quando De Gaulle, devido à pressão da História, teve de conceder a independência aos países africanos. Na altura, decretou uma nova legalidade internacional: a independência. Ao mesmo tempo, instruiu o seu braço direito, Jacques Foccart, para fazer exactamente o oposto, por três ou quatro razões:

— Em primeiro lugar, para manter o papel da França na ONU com um cortejo de Estados clientes submissos.

— Para manter o acesso às matérias-primas estratégicas: petróleo, urânio, ou outras suculentas, como a madeira, o cacau, etc.

— Para manter o financiamento da vida política francesa (…).

— A quarta razão é o papel relevante da França durante a Guerra Fria ao serviço do campo ocidental, evitando que uma parte da África mudasse de campo, passando para o lado do bloco comunista[2].

         Verschave explica, então:

«Se se decreta uma nova legalidade internacional e se faz exactamente o contrário do que deve ser feito, o que estamos a fazer é ilegal, e só pode ser feito de modo oculto, escondido. E é por isso que todas essas relações franco-africanas são, na sua maioria, escondidas dos olhos do público, porque eles não podem ser assumidas, uma vez que a nova legalidade é a independência. Noutras palavras, a França-África é como a ponta de um iceberg: está 10% fora de água (a França, a pátria dos direitos humanos, a melhor amiga da África, generosa, etc.), uma face sem manchas da relação Franco-Africana, e está 90% submerso, que é a realidade profunda da relação Franco-Africana, o sistema criado por Jacques Foccart, visando manter a dependência. Quais foram esses meios ocultos? (…) O primeiro era escolher para chefes de Estado apenas os amigos da França, muitas vezes também com nacionalidade francesa, às vezes meros agentes dos serviços secretos franceses, Omar Bongo[3] (…). Por isso, foram escolhidos os procônsules com pele negra.»

         Mas como foram escolhidos? No caso específico dos Camarões, Verschave explica:

«Primeiro começaram com uma terrível guerra civil nos Camarões, onde morreram entre 100 000 a 400 000 pessoas, uma Guerra comparável à do Vietname, que não consta em nenhum livro de História.»

         A segunda ilustração é explicada pela História dolorosa do Togo:

«Depois, assassinaram os líderes legítimos eleitos pela população, como Sylvanus Olympio, no Togo, que foi assassinado por quatro sargentos chefes das forças francesas saídos da guerra na Argélia, um dos quais ainda está no poder, Eyadema (entretanto morreu em 2005), sob a supervisão do oficial francês responsável pela sua segurança»[4].

Sylvanus Olympio (6 de Setembro de 1902 até ao dia do seu assassinato a 13 de Janeiro de 1963) foi presidente de 1961 até 1963. Estudou no London School of Economics, oriundo de uma família rica de origem brasileira, tinha grande ligação com os países anglófonos e preferia a cooperação com a Alemanha, antiga potência colonial. Ficou muito desapontado com a França quando foi preso durante a II Guerra Mundial, enquanto o Togo passou no controlo da França de Vichy. Sylvanus Olympio fez de Ahmed Sekou Touré[5] seu conselheiro especial no governo, em 1960. Olímpio não figurava nas alianças da França com as ex-colónias. 

Na República Centro Africana

Barthélemy Boganda, por exemplo, morreu num suspeito acidente de avião. Assim foi feita, primeiro, uma grande limpeza da casa, depois os outros foram promovidos através da fraude eleitoral ou da corrupção, os meios clássicos.

Boganda, o primeiro padre católico deste país, teve uma rica actividade política entre 1946 e 1959. Preconizava um grande Estado Único, com o Congo e o Chade. Na verdade, como me disse o professor Abel Goumba[6], aqui em Luanda, Boganda queria a união também com os Camarões. Morreu numa queda de avião cujas circunstâncias se mantêm até hoje por esclarecer. Depois da sua morte, David Dacko[7], seu primo, tomou o poder…

No dia 31 de Dezembro de 1965, Jean Bedel Bokassa[8], antigo militar ligado à França, coronel e chefe do Estado-Maior, realizava o seu golpe de Estado.  

Uns anos depois, enquanto Bokassa se encontrava em Tripoli, as tropas francesas da operação Barracuda (Setembro de 1979 até Setembro de 1981) fizeram o golpe de Estado para repor David Dacko no poder. E, assim, a França continuou as suas ingerências militares, até este país se tornar impossível de governar por falta de um Estado viável.

No Gabão

O primeiro presidente do Gabão independente foi Léon Mba[9], que não queria esta independência por que preferia a «departamentalização». Para ele, o Gabão deveria manter-se como um departamento da França, com a bandeira francesa, e etc…

Na noite de 17 para 18 de Fevereiro de 1964, os militares gaboneses prenderam, sem golpes de fogo, o presidente da Assembleia Nacional, Léon Mba, e formaram um governo provisório dirigido por Jean Hilaire Aubame, grande rival de Mba. O general De Gaulle, que apreciava muito os privilégios de Léon Mba, ordenou uma intervenção militar das forças armadas francesas com 2000 soldados vindos de Dakar e de Brazzaville, que desembarcaram na noite de 18 para 19 e repuseram Mba no poder.

Albert-Bernard Bongo, pai do actual presidente do Gabão, Ali Bongo, era chefe de Gabinete de Léon Mba. Escolhido pelos serviços franceses, foi nomeado, primeiro, ministro delegado para a presidência, depois vice-presidente de Mba, velho e muito doente, hospitalizado em Paris, onde acabaria por falecer, tornando-se assim Bongo o segundo presidente do Gabão. No seu reinado, houve também algumas ingerências militares francesas, como por exemplo em Maio de 1990, sob o pretexto da evacuação dos 1800 estrangeiros. O mesmo cenário em 1997, no Congo-Brazzaville, e em 1998, no Congo Democrático.

Dr Daniel YAGNYE TOM


[1] Historiador e politólogo.

[2] A França-África explicada por François-Xavier Verschave: www.youtube.com/watch?v=_07Uf3zBp3M

[3] Ocupou o cargo de presidente da República Gabonesa durante 42 anos, de 1967 a 2009.

[4] Enquanto isso, generalíssimo Gnassingbé Eyadéma morreu e foi sucedido pelo seu filho Faure Eyadema.

[5] (1922-1984), primeiro Presidente da República de Guiné-Conacri de 1958 a 1984. Presidente do PDG, Partido Democrático de Guiné. Fez campanha pelo «NÃO» em 1958 para a Independência quando o general Charles De Gaulle quis criar uma Comunidade Federal com a França. Com a independência, a França retirou do país todos os profissionais francesas e todo o material de transporte.

[6] Foi primeiro-ministro (Março a Dezembro de 2003) e vice-presidente (2003-2005) da República Centro-Africana.

[7] (1930-2003). Primeiro Presidente da República Centro-Africana de 1960 até 1966 e terceiro Presidente da República 1979 até 1981.

[8] (1921-1996 ). Segundo presidente da República Centro-Africana de 1966 a 1996. Imperador de 1996 a 1979, quando foi deposto pelo golpe militar de David Dacko.

[9] Primeiro presidente do Gabão entre 1961-1967, embora o seu partido, o BDG, Bloco Democrático Gabonês, fosse menos influente do que a UDSG (União Democrática e Social Gabonesa, do federalista Jean Hilaire Aubame).

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